SIDA: Moçambique fracassa

FRACASSO é a palavra repetida pelas autoridades de saúde em Moçambique como o desfecho mais provável ante o combate contra o HIV/SIDA no país, resultante da redução do financiamento externo para acções de prevenção contra esta pandemia, privilegiando-se apenas o tratamento.

“A prevenção é a chave para o sucesso. Não se pode olhar apenas para o tratamento, mas sim, evitar novas contaminações. Com esse retrocesso, os esforços para reduzir os índices de prevalência são um dilúvio”, segundo Francisco Mbofana, secretário-executivo do Conselho Nacional de Combate ao HIV/SIDA (CNCS), em entrevista ao Correio da manhã.

Reconhecendo, por isso, que a questão do HIV/SIDA no país é um “desafio muito grande”, principalmente nas acções de prevenção, retenção e transmissão vertical do vírus (mão para filho).

“Atendendo o contexto de globalização, que é quase uma obrigatoriedade de inclusão, no papel, o Estado moçambicano assumiu vários compromissos internacionais no combate a esta doença, mas sabemos que na prática algumas metas são uma miragem e outras até impossível de alcançá-las”, disse.

Porém, mesmo perante a insistência da nossa reportagem, o secretário-executivo do CNCS declinou revelar o valor da redução de financiamento externo para acções de prevenção, adiantando apenas que a desaceleração começou em 2015.

“Não é relevante falar de números, o importante é fazer chegar a mensagem aos doadores de que o aconselhamento e testagem do HIV/SIDA devem jogar os conceitos em simultâneo, ou seja, prevenção acompanhada do tratamento”, afirmou.

Entretanto, o Cm sabe que os doadores reduziram o financiamento à prevenção da chamada “doença do século” em Moçambique, alegadamente por “insatisfação com os resultados dos programas implementados” no país.

Dados do Ministério da Saúde (MISAU) revelam que mais de 500 novas infecções diárias do HIV/SIDA são registadas no país, números que não agradam aos principais doadores (governo norte-americano e fundo global), que até então desembolsavam mais de USD 600 milhões/ano para financiar iniciativas de prevenção desta doença.

Importa referir que o primeiro aviso foi feito em 2011 (consumado a partir de 2015), altura em que se estimava em cerca de 1,6 milhão moçambicanos que viviam com HIV/SIDA, número, porém, que aumentou até 1.849.690 em 2016, ou seja, os indicadores tendem a piorar.

Deste universo de pessoas com esta doença, um milhão é que está a receber o Tratamento Anti-Rotroviral (TARV), pelo menos até Março deste 2017, apurou o Cm junto do Conselho Nacional de Combate ao HIV/SIDA.

Francisco Mbofana
Francisco Mbofana

Recuo dos EUA

Como que em jeito de resposta e recuo, os Estados Unidos da América (EUA) prontificaram-se a desembolsar USD 400 milhões para o combate a esta doença em Moçambique em 2018, com destaque para o retorno ao financiamento às acções de prevenção.

O plano para o próximo ano prevê também uma aposta em medidas de prevenção junto de grupos de risco e garantir que todas as mulheres grávidas e lactantes conheçam o seu estado serológico para prevenir a transmissão da doença para recém-nascido.

As acções vão dar especial atenção à província central da Zambézia que, de acordo com os dados oficiais, tem o maior número de pessoas infectadas com HIV e a menor cobertura de tratamento.

De referir que o Programa das Nações Unidas para Combate à Sida (ONUSIDA) indica que Moçambique está entre os sete países da África Oriental e Austral que concentram 50% das novas infecções que ocorreram entre 2010 e 2016 e que nesse período atingiram 790 mil pessoas.

EDSON ARANTE

Este artigo foi publicado em primeira mão na edição do dia 17 de Novembro de 2017, na versão PDF do jornal Correio da manhã

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