Regresso dos deslocados

Milhares de moradores deslocados de várias aldeias, que ficaram desertas na sequência do conflito político-militar entre o Governo moçambicano e a Renamo, começaram a regressar às origens em Manica, centro do país, dando crédito no fim das hostilidades.

“Já não há mais guerra, então regressei com a minha família, porque aqui conseguia fazer negócios (venda de maçaroca para viajantes) para o nosso sustento”, disse à Lusa Elisa Roque, uma moradora de Nhamatema, no distrito de Báruè, largamente afectada pelo conflito, enquanto acena para viaturas com uma bacia cheia de maçaroca cozida e assada.

Nos arredores da aldeia – onde foi feito o ataque da comitiva do Governo e foi forçada a evacuação sob suspeitas de serem apoiantes da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) – também começaram a reabrir tradicionais estações de venda de mel e carvão vegetal.

Várias aldeias, sobretudo no distrito de Mossurize (sul) e Báruè, a norte de Manica, ficaram completamente abandonadas, devido aos confrontos entre as forças governamentais e o braço armado da Renamo.

Contudo, desde o anúncio da trégua de 60 dias, decretada pelo líder da Renamo em Janeiro, a população tem ponderado o regresso às suas habitações, tendo alguns iniciado a limpeza dos escombros das casas destruídas por fogo posto dos beligerantes.

“Tínhamos fugido para Catandica, para casa de um familiar, e só estávamos à espera de tudo acabar para regressar, muitos continuam a vir para cá, porque já não há guerra”, disse à Lusa Estevão Ndinda, um morador de Honde (Báruè), o epicentro da retomada em 2016 do conflito militar entre as partes, e severamente fustigada pela situação.

Ndinda lembrou que fugiu de casa numa madrugada do inverno passado sem roupas no corpo.

Em Chiuala, o centro dos ataques atribuídos pela Polícia a homens armados da Renamo junto à N7, a estrada que liga Manica a Tete, e desta aos países africanos do interior, uma aldeia ocupada pelas forças governamentais para aquartelamento voltou a receber os moradores que reactivaram o comércio.

“Primeiro começámos a vender mangas, mesmo com as escoltas de carros, mas agora a situação melhorou ainda e muitos já estão a voltar para casa, porque já não há guerra”, precisou um comerciante local, sustentando que os militares que tinham ocupado a aldeia retiraram-se desde o anúncio da trégua, tendo ficado apenas um grupo de vigilância.

Nesta aldeia, onde foi registado um maior número de ataques na N7, ainda se pode ver a presença de militares estatais fardados, mas muitos de chinelos e sem arma entre as casas.

O período da trégua de 60 dias decretado pelo líder da Renamo, Afonso Dhlakama, em Janeiro, para dar espaço às negociações de paz entre o Governo e o seu partido, termina a 04 de Março.

Apesar de ainda não serem conhecidos avanços concretos, foram anunciados este mês pelas partes grupos de trabalho para preparar a nova fase do diálogo para os assuntos militares e da descentralização.

Em entrevista à Lusa recentemente, Afonso Dhlakama manifestou esperança de ver encontrada uma solução para a equação da paz antes do fim do prazo da trégua, apesar das denúncias de violações.

O centro e o norte de Moçambique estavam a ser assolados há mais de um ano pela violência militar, na sequência da recusa da Renamo em aceitar os resultados das eleições gerais de 2014, exigindo governar em seis províncias onde reivindica vitória no escrutínio.

Redação & Lusa

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