O mel e fel de Cateme

O mel e fel de Cateme – Entre as perto de 1400 pessoas transferidas de quatro bairros de Moatize para Cateme, por forma a permitir a exploração mineira naquele ponto da província de Tete, encontram-se alguns “pedaços” da rica história de Moçamique que se vão perdendo sem nenhum registo oficial para a posterioridade. Afonso Minijo Salar é disso exemplo.

Salar parece ter nascido para ser líder, a avaliar pelo que contou à Reportagem do Correio da manhã em Cateme.

Aos 15 anos foi se apresentar numa das lendárias bases da guerrilha da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) – a de Kassuende, onde foi recebido pelo recentemente falecido comandante Augusto Capece, cognominado “Dois homens” (por considerar, e até certo ponto evidenciar, que dois homens são bastantes para executar com valentia uma missão militar), de acordo com o nosso interlocutor.

Salar fez todo o seu percurso militar (12 anos) em Tete, brutalmente interrompido na manhã de um domingo, em 9 de Novembro de 1986, num remoto lugarejo do distrito de Macanga, quando, no auge da luta contra a guerrilha da Renamo (1976/1992), caiu numa armadilha, e uma mina anti-pessoal lhe amputa a perna e a orelha direitas, enquanto, como alferes, fazia uma patrulha em frente de um pelotão das tropas governamentais.

“Seguiram-se longos cinco dias de martírio infernal, entre a vida e a morte, a ser transportado pelos camaradas numa maca pelas matas, em loucas correrias de um lado para o outro, até que ao sexto dia veio um helicóptero para me levar para Tete”, recorda-se Afonso Salar, sem conseguir esconder alguma emoção.

Dada a gravidade dos ferimentos Salar foi depois transferido para a capital de Moçambique, Maputo, e depois para um hospital na Bulgária, no continente europeu.

Em destaque o veterano Afonso Minijo Salar, de 58 anos de idade
Em destaque o veterano Afonso Minijo Salar, de 58 anos de idade

“Não me posso queixar. Tive tratamento adequado”, conta Salar, desde 2010 responsável máximo do partido Frelimo na Fazenda Moderna, onde está adstrita a Associação Bwerani Dzaone Nkhuku Ya Cateme (Venham Ver os Frangos de Cateme), que agrega 66 associados e 204 produtores, sob o patrocínio da mineradora Vale Moçambique.

Deleite e lamúrias

Afonso Minijo Salar, de 58 anos de idade, também responsável da Associação dos Combatentes de Luta de Libertação de Moçambique (ACLLIM) em Cateme, é um dos que vivem entre o deleite e a lamúria naquele ponto de Moçambique.

Ao mesmo tempo que afirma que “só quem não se entrega ao trabalho deseja voltar a Mitete, Bagamoyo, Chipanga ou Malabwe, em Moatize, porque aqui a vida é relativamente melhor”, logo a seguir acrescenta que “fomos enganados e abandonados pela Vale porque nem tudo o que nos prometeram estão a cumprir”.

Dê alguns exemplos”! pedimos.

De pronto, Salar enumerou: “prometeram-nos transporte; mas foi coisa de pouca duração, os nossos filhos correm o risco de morrer pobres como nós. Não lhes (a Vale e as empresas concionárias) dão emprego, as casas que construíram para nós rapidamente evidenciam rachas e com frágeis alicerces”.

“Isto é apenas para citar alguns, porque a lista é longa”, asseverou, mudando de semblante, até então aparentemente amistoso.

“Até o cemitério que contruíram alegadamente para nós jamais nos foi entregue formalmente e hoje temos de pagar entre mil e 1600 meticais para realizar funerais em caso de morte de um ente nosso”, acrescenta Salar, ante o aceno cúmplice, com o abanar das cabeças de cima para baixo, de João Bernado, de 44 anos de idade, e Mateus Senete (35), outros reassentados em Cateme e que hoje ganham a vida na Associação Bwerani Dzaone Nkhuku Ya Cateme.

Salar, Bernardo e Senete dizem ser simplesmente absurdo que a Vale não recrute mão-de-obra no seio dos filhos dos reassentados, mesmo depois destes concluírem a 12.ª classe.

Parte do complexo carbonífero de Moatize
Parte do complexo carbonífero de Moatize

Os três homens dizem que para não dependerem exclusivamente dos rendimentos gerados na Associação Bwerani Dzaone Nkhuku Ya Cateme “também vamos fazer alguns ‘madjoridjo’ (biscates) na vila de Moatize”, que dista a aproximadamente 37 quilómetros do “novo” Cateme.

Efectivamente, em Tete existem dois “Catemes”, o “antigo” (composto por desordenadas cabanas reles, sem nenhuns serviços básicos ao redor), onde, em 2009, os nativos locais rejeitaram acolher os desalojados Mitete, Bagamoyo, Chipanga e Malabwe, sob os mais variados pretextos.

A uns cinco quilómetros a norte se encontra o “novo” Cateme, construído pela mineradora Vale, com arruamentos devidamente alinhados, rede eléctrica, posto de polícia, uma rádio comunitária, Centro de Saúde com maternidade, uma escola primária (Ngungunhane) e outra secundária completa, um sistema de abastecimento de água potável (500 metros cúbicos), entre outros serviços básicos.

Sintomaticamente, nos últimos dias o “novo” Cateme tem sido alvo de assédio de alguns residentes do “velho” Cateme, interessados em ali se estabelecer.

É aparentemente este cenário que anima Cirineu Ferreira, gerente de Relações Institucionais e Comunitárias da Vale Moçambique a considerar “natural” que alguns dos reassentados em Cateme se lamentem.

Ferreira acredita que “paulatinamente as pessoas se convencerão que estão melhor aqui do que no local de proveniência porque a Vale está apostada em continuar a contribuir para o melhoramento das comunidades aqui em Moatize. Estamos aqui no mínimo por mais 35 anos”.

REFINALDO CHILENGUE

Este artigo foi publicado em primeira mão na edição do dia 30 de Novembro de 2017, na versão PDF do jornal Correio da manhã

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