Festival Afropunk

As extravagantes vestes, os gestos amiúde exibidos do palco e da assistência e a linguagem (imprópria para os que se guiam pelos brandos costumes) são as primeiras características que podem embaraçar quem assiste pela primeira vez a um festival afropunk, um movimento que de 2003 a esta parte já percorreu várias cidades mundiais e, pela primeira vez, decorreu nos dias 30 e 31 de Dezembro de 2017.

Sob o lema “Nós, as massas”, cumpriu-se, no penúltimo e último dia de 2017, nos terrenos adstritos ao Constitution Hill, em Joanesburgo, um ritual multicultural (afropunk) que movimenta gente de diferentes origens, idades, credos e gostos, apenas unidos pelo princípio de irreverência, desde o estilo de música, indumentária, postura, arte e comida, num ambiente onde (quase) tudo se permite.

Músicas com letras que incluem passagens tais como “f…m-se as vossas mães” e “a polícia que se f…”, com ruidosas batidas metálicas oriundas do palco, repetidas em coro pela frenética e ruidosa assistência, acompanhadas por vibrantes gestos que podem ferir a sensibilidade de quem para o local se fez menos preparado psicologicamente e/ou sem saber de que tipo de espectáculo se tratava caracterizam o ambiente que rodeia o certame que arrastou diversas nacionalidades para a vizinha África do Sul, mas menos divulgado em Moçambique.

Apesar de pouco conhecido/divulgado entre nós, o movimento afropunk tem alguns seguidores na “Pérola do Índico”. No auge do concerto no dia 31 de Dezembro de 2017, no meio da multidão em delírio, foi possível vislumbrar alguém a agitar extasiadamente a bandeira da República de Moçambique, que, para nosso espanto, apenas disputava espaço com a bandeira do Uganda.

Fãs assistindo ao Festival Afopunk em Joanesburgo
Fãs assistindo ao Festival Afopunk em Joanesburgo

“É uma loucura, nunca tinha visto nada igual. Pensei que nós (os portugueses do norte) fossemos os mais bujardeiros”, exclamou Matias Freixo, que aproveitou a visita à família em Benoni (arredores de Joanesburgo) para assistir ao afropunk.

“Senti-me embaraçado nos primeiros momentos por causa das vestes e do ambiente no geral, mas já me sinto à vontade”, comentou a zimbabweana Margaret Zvogbo, que disse ter viajado de Harare, com o namorado Thomas, expressamente para assistir ao concerto.

Primeiro dia “estragado”

A irreverência a todos os níveis foi uma das marcas do evento
A irreverência a todos os níveis foi uma das marcas ao longo de todo o evento

Por pouco o primeiro dia do concerto ficava comprometido, quando, ao minuto 120 das oito horas programadas para o evento, caiu uma chuva de granizo por longos 60 minutos, com bruscos intervalos “apimentados” com sol.

Nem este contratempo foi suficiente para desmobilizar a assistência. Se alguns se foram abrigar da chuva, pelo menos um “resiliente” espectador não arredou pé ante aquela descarga e, mesmo com os instrumentos em silêncio, manteve-se no lugar mais privilegiado reservado aos assistentes “VIP”, contorcendo-se em movimentos frenéticos mas sem nexo, como se alguma música persistisse, arrancando, por conseguinte, ruidosas palmas e gritos de incentivo dos restantes convivas.

“Aquela valentia debaixo daquele granizo todo só pode ser efeito de toma excessiva de algumas substâncias entorpecentes”, comentou um dos espectadores, ele próprio a consumir bebidas alcoólicas desde pouco antes do início do show testemunhado pela Reportagem do Correio da manhã/Prestígio.

“Santo” 31 de Dezembro

Alguns dos fãs que acorreram aos festival
Alguns dos fãs que acorreram ao festival

Numa tarde ensolarada, contrastando com a do dia anterior, com a sua extraordinária voz, o vocalista principal do agrupamento Urban Village foi quem “abriu as hostilidades” na tarde do dia 31 de Dezembro de 2017, dando sinais claros de que quem ali estivesse não abandonaria o local antes do começo de 2018.

O desfile dos artistas era intercalado pela actuação de fabulosos djs, que sabiam o que tocavam e quando, “mexendo” com os “corações” e “esqueletos” de quase todos.

Nos ecrãs gigantes montados eram, intermitentemente, passados alguns extractos de pensamentos de “rebeldes” como Nelson Mandela, Steve Biko que são apontados como alguns dos inspiradores dos criadores do afropunk.

Ninguém conseguia ficar sossegado durante a actuação das estrelas
Ninguém conseguia ficar sossegado durante a actuação das “estrelas” em palco

Segundo os criadores deste, o nome do festival afropunk é a junção de duas palavras que orientam o espírito da iniciativa, a saber:

Afro: origem, espírito e herança africanos. É muito sublinhado o preto, apesar de um esforço para a ressalva antiracial do projecto (aliás, arrasta pessoas de diferentes pigmentações).

Punk: como dentro, rebelde, opondo-se à rota simples, olhando para frente com simplicidade, crueza e curiosidade aberta; veja também outro.

“AFROPUNK está definindo a cultura pelas acções criativas colectivas do indivíduo e do grupo. É um lugar seguro, um espaço em branco para assustar, construir uma nova realidade, viver a sua vida como achar conveniente, enquanto faz sentido do mundo ao seu redor”, defende uma das passagens da letra do respectivo grupo criador/dinamizador.

Refinaldo Chilengue

Este artigo foi publicado em primeira mão na versão PDF do jornal Correio da manhã,  edição de 10 de Janeiro 2018.

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